Meus Cumprimentos

É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espírito, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na Terra, não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida...
Bob Marley

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Entendendo a Venezuela (4)

"Los cerros contestarán"


Viajei à Venezuela levando na bagagem mental uma pergunta que me permitiria entender por que o país se dividiu politicamente (em partes desiguais) de maneira tão visceral. A pergunta, fiz a pelo menos umas duas dezenas de pessoas, entre as quais as que já citei em textos anteriores, quais sejam, o motorista de táxi que me trouxe do aeroporto de Caracas ao hotel em que me hospedei, um engenheiro que conheci no vôo entre Caracas e Barquisimeto, um dos recepcionistas do hotel em que estou hospedado, o dono de uma banca de jornal em frente ao hotel, vários clientes, seus empregados e todos aqueles com os quais tive oportunidade de tocar num assunto (política) que apaixona, divide e, por vezes, enfurece os venezuelanos.

Trata-se de uma pergunta muito simples, mas, a despeito de sua simplicidade, até agora ninguém ma respondeu satisfatoriamente. Qual é essa pergunta? É a seguinte:

O que mudou em sua vida, para melhor ou para pior, depois que Chávez assumiu o poder?

Deveria ser simples responder a uma questão como essa. Quem apóia ou repudia um governo deve ter, na ponta da língua, os motivos para tanto. A despeito disso, só o que obtive foram evasivas e frases feitas. Isso se explica, talvez, pelo fato, que já relatei, de que, até ontem à noite, não havia conseguido localizar um único chavista convicto. Quem mais se aproximou de tal foi o diretor da primeira empresa que visitei na Venezuela, Alfredo, que, apesar de não ser chavista, de não ter votado por Chávez, não encampa a paranóia dos que repudiam o governo venezuelano e, sobretudo, seu titular.

Deram-me razões políticas para detestarem Chávez. Deram-me medo de que ele converta a Venezuela numa grande Cuba. Deram-me raiva da língua ferina do presidente. Pessoas que estão longe de ser elite, pois são de classe média baixa, deram-me, até, razões de seus patrões para não gostarem de Chávez. Imaginem que, na quarta-feira, visitei uma empresa na cidade de Valencia, a três horas de ônibus de Caracas. Depois da reunião, o gerente de compras daquela empresa me deu carona até o terminal rodoviário. No caminho, perguntei a ele sobre o governo, ouvi que o detestava e, então, perguntei se nem uma medida como a redução, de oito para seis horas diárias, da jornada de trabalho, o havia agradado, pois ele trabalharia menos ganhando o mesmo salário. O que ouvi? Preocupação do sujeito com o bolso de seu patrão, que é dono da única concessionária Mercedes Benz da cidade, e que, como constatei, ganha dinheiro a rodo.

Mas tudo mudou na noite de ontem.

Como lhes disse, pretendo aproveitar o fim de semana para localizar os que apóiam o governo Chávez. Pretendo ouvir essa parcela majoritária dos venezuelanos que elegeu, reelegeu, re-reelegeu e re-re-reelegeu o presidente Venezuelano nos últimos oito anos. E, como também já havia dito, fui informado, pelos anti-Chávez com quem venho conversando, que essas pessoas vivem nos morros que circundam Caracas. Aliás, segundo novas informações que obtive, pelo menos 80% dos caraquenhos vivem na miríade de morros que abraça a capital venezuelana. São morros como Petare, El Valle, 23 de enero, Catia e Pro-Patria, entre muitos outros.

Fui alertado – e comentei isso com vocês – de que é perigoso ir aos morros caraquenhos. Seria, mais ou menos, como um turista estrangeiro subir sozinho ao Complexo do Alemão, no Rio.

Nem Jesus Cristo seria capaz de me fazer – justo eu – vir à Venezuela e não ouvir o que tem a dizer o povo, o povo verdadeiro, aquele que vive na América Latina real, que sofre toda sorte de privações, humilhações, carências imensuráveis e que é tão cruelmente explorado e subjugado por uma elitezinha malvada, egoísta, arrogante. Contudo, é preocupante um estrangeiro, alguém que a nacionalidade diferente salta aos olhos, embrenhar-se em bairros pobres e violentos da periferia de uma grande cidade do Terceiro Mundo. Em vista disso, passei o dia de ontem preocupado em como fazer a minha “reportagem” de forma responsável, ou seja, com um mínimo de segurança.

A sorte me sorriu. Como sou alguém dado a um certo misticismo, acredito que, talvez, o destino queira que eu obtenha o que busco, a fim de levar ao nosso país informações que lhe são sonegadas por seus meios de comunicação, de forma que, num trabalho de formiginha, eu possa contribuir para a tão necessária integração latino-americana. O que aconteceu foi que, entabulando a mesma conversa sobre o governo com o recepcionista do hotel que faria o plantão na noite de ontem, achei o primeiro cidadão venezuelano que apóia o governo.

Henry é um homem de uns 45 anos, de olhar severo, tem pele escura, é calvo, usa um cavanhaque ralo, pesa uns 60 quilos e não mede mais do que 1,60 m. Quando lhe disse que, até aquele momento, não havia encontrado um só apoiador de Chávez, perguntou-me por que queria encontrar um. Expliquei-lhe sobre meu blog, sobre minhas convicções. Seus olhos brilharam. Perguntou-me, então, a que partes eu estava indo para não encontrar nenhum dos muitos que apóiam o que chamou de “o processo”. Ao saber da natureza de minha viagem ao seu país, disse-me o que eu já sabia, que os que aprovam o governo não seriam encontrados na cidade baixa, apesar de muitos deles trabalharem nela, pois é comum, neste país, que os patrões demitam chavistas que manifestam com freqüência suas convicções políticas. Assim sendo, muitos deles não assumem tais convicções.

O homem, apesar de não ser militante de partido político, mostrou-se impressionantemente politizado para um simples recepcionista de hotel. Fala bem, é objetivo e soube responder à pergunta que, até então, ninguém havia me respondido. Revelou que o que mudou em sua vida, por exemplo, é que ele, depois de passar décadas com os dentes apodrecendo, hoje ostenta uma saudável dentição porque uma das missões de Chávez disponibiliza à comunidade em que vive nada mais, nada menos do que oito dentistas. Exibiu, sorridente, sua dentição impecável enquanto me contava de como está, depois de uma vida inteira, finalmente conseguindo ampliar a casa em que vive com sua família, tudo graças a subvenções do governo federal.

Mas então, Henry, por que todas essas pessoas de classe média baixa, com as quais conversei, não estão satisfeitas? Diante de pergunta tão intrigante e relevante, Henry me propôs o que eu já ia lhe pedir:

-- Hagamos lo siguiente, señor Guimarães : ¿que le parece si lo invito a conocer mi barrio, a hablar con la gente y, después, lo invito a un almuerzo en mi casa? Ahí, vas a saber lo que pasa, por que algunos no valoran lo que hace el gobierno. Yo lo llevo a mi casa, lo conduzco a hablar con la gente, le presento amigos, parientes, lo llevo a una misión de Chávez y le voy a probar que millones de venezolanos matan o mueren por el sin pertenecer a ningún partido, solamente por gratitud por todo lo que el ha hecho por este pueblo, que esos que insultan al presidente nunca lo hicieran cuando gobernaran.

Perguntei a Henry sobre segurança. Ele me disse que falta de segurança há em toda parte, mas que ele não me deixaria só nem por um minuto e que morreria antes que deixasse me acontecer alguma coisa, ainda mais sendo eu alguém que se dispõe a misturar-se com sua gente para levar a um país “hermano” a verdade sobre a Venezuela.

Devo lhes dizer que fiquei emocionado. Com a voz embargada, com os olhos úmidos, aceitei a oferta. Amanhã, domingo, às sete da manhã, quando terminar o turno de Henry na portaria do hotel, tomaremos o metrô, depois o que ele disse ser um “jipe” coletivo e subiremos ao morro Pro-Patria, onde o recepcionista vive. E irei sem medo, pois estou obedecendo minha consciência, meus princípios cristãos, munido da melhor das intenções, impulsionado por este desejo ardente, que me consome, de contribuir, de fazer minha parte para que esta parte do mundo, um dia, torne-se menos desumana, menos injusta, mais civilizada.

O morro, o “cerro” Pro-Patria, pobre, carente, humilde, responderá à simples pergunta que trouxe à Venezuela e que nenhum dos “bem informados” e “esclarecidos” anti-chavistas soube responder.



Escrito por Eduardo Guimarães dia 18/08/2007, no seu blog http://edu.guim.blog.uol.com.br/

Entendendo a Venezuela (3)

O poder de Chávez

Imagine, primeiro, o presidente Lula no Congresso discursando em rede nacional de rádio e televisão. Ele está descontraído. Enquanto fala, faz gracejos com os presentes. Parece estar numa roda de amigos. Porém, trata de assunto muito sério: está propondo uma profunda reforma da Constituição. Entre as medidas anunciadas, sobressaem as seguintes
· Aumento em 1 ano do mandato dos presidentes da República.
· Possibilidade de os presidentes da República reelegerem-se quantas vezes conseguirem.
· Inscrição na Constituição de cláusula proibindo o latifúndio
· Inscrição na Constituição de cláusula que proíbe qualquer “autonomia” do Banco Central e determinando que os controles dessa instituição sobre a economia do país serão exercidos pelo Poder Executivo e por aquele Banco - conjuntamente.
· Redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais, ou de 8 para 6 horas diárias, sem absolutamente nenhum prejuízo para os salários dos trabalhadores.
· Criação de um fundo que amparará todos os trabalhadores autônomos - como taxistas ou empregadas domésticas - quando se aposentarem ou por invalidez ou por doença, independentemente de terem contribuído para a Previdência.
· Possibilidade de o governo central reformular a divisão territorial do país e criar territórios federais.

Agora imagine que, durante a cerimônia de propositura de dezenas de alterações profundas na Constituição, o presidente faça pausas para atacar seus opositores da imprensa e da oposição, chamando-os, por exemplo, de “golpistas” em rede nacional de rádio e tevê e recomendando a eles que, se se preocuparem com o que está anunciando, que tomem calmantes.

Depois de tudo isso, imagine que, nas ruas do país, nas estações de metrô, nos pontos de ônibus, em toda parte você veja o rosto sorridente do presidente da República com os olhos postos no infinito. E imagine, finalmente, que, além de convocar, quase toda semana, cadeias de rádio e tevê durante horas, o presidente tenha dois canais de tevê nos quais, em programas sobre política, as críticas da mídia e da oposição serão rebatidas uma a uma, e os donos dos meios de comunicação serão citados nominalmente e receberão de volta os insultos e acusações que tiverem feito ao governo e ao titular desse governo.

Se Lula fizesse uma só dessas coisas, seria derrubado no dia seguinte. No Brasil, o atual presidente da República agüenta insultos de toda sorte. Chamam-no de “cachaceiro”, de “ignorante”, de “corrupto” e até de “assassino” e ele nem sequer responde. Quando muito, limita-se a insinuações contra seus agressores da imprensa, da oposição e de movimentos de ricaços que se dizem “cansados” de seu governo.

Tudo o que relatei acima, é inconcebível que aconteça no Brasil, mas acontece na Venezuela. Diante disso, muitos dirão que estavam certos – e eu, errado – quando diziam – e quando continuam dizendo – que Chávez é um “ditador”. Eu, porém, continuo discordando. E pretendo demonstrar por que penso assim valendo-me de fatos incontestáveis, que relatarei mantendo a esperança de que acreditem em mim quando lhes garanto que estou relatando exatamente o que estou vendo aqui na Venezuela, pois pretendo oferecer-lhes uma visão correta da situação desta sociedade e do processo histórico que está ocorrendo aqui e que começa a se espalhar por toda América Latina, e que, daqui deste continente, talvez se espalhe pelo mundo – ou, melhor dizendo, pelo Terceiro Mundo.

Dizem que Chávez é “ditador” por conta dos poderes discricionários que acumulou e que exerce em sua plenitude. Mas não dizem como ou por que o presidente da Venezuela acumulou tais poderes. E não dizem que Chávez faz o que faz, mas seus inimigos não estão sendo acuados ou calados. Pelo contrário. Eles vão à tevê, às rádios, aos jornais e às ruas e o insultam de todas as formas. Alguns pregam abertamente o magnicídio (assassinato de chefes de Estado). Chamam-no de ladrão, de corrupto, de demente e de outras coisas impublicáveis. E ninguém vai preso, como iria numa ditadura. A mídia brasileira ou a venezuelana não contam nada disso, mas eu contarei.

Quantos será que sabem que os antecessores de Chávez levaram uma enorme maioria dos venezuelanos a um paroxismo de indignação por usarem a infindável riqueza petrolífera deste país para enriquecerem uma parcela amplamente minoritária da sociedade enquanto a maioria dos cidadãos deste país mergulhava numa pobreza imoral e era empurrada, por exemplo, para os morros que circundam Caracas, para vegetar em “viviendas” precárias, em “barrios” sem saneamento básico, sem escolas, sem hospitais, sem segurança, em suma, sem a menor dignidade?

O coronel Hugo Chávez, que antes havia tentado um golpe de Estado - para, segundo ele mesmo, reverter a situação de miséria de seu povo que descrevi acima -, fracassou naquele golpe e, por isso, ficou preso durante dois anos. Mas será que alguém sabe que ele saiu do cárcere porque os venezuelanos exigiram sua libertação em manifestações de rua, em protestos de todo tipo?

Chávez chegou ao poder nos ombros de uma maioria avassaladora dos venezuelanos. Inclusive nos ombros de boa parte dos cidadãos de classe média baixa que hoje estão contra ele. E isso porque a oposição e a mídia que hoje o acusam, antes de ele chegar ao poder governavam a Venezuela contra todos os interesses do país. Alguém sabe que o petróleo venezuelano era vendido subsidiado aos EUA? Alguém consegue explicar por que um país com tanta pobreza vendia sua riqueza maior ao país mais rico do mundo abaixo dos preços internacionais e a mídia não dizia um A?

Não sei se muitos, aí no Brasil, sabem como foi que Chávez acumulou tanto poder. Então vou explicar como foi.

Depois da tentativa de golpe de Estado de 2002, sobreveio uma greve de trabalhadores da PDVSA (estatal de petróleo da Venezuela) que paralisou a economia de um país, até então, totalmente dependente do petróleo. O PIB chegou a cair cerca de 10% em um ano. Os sindicatos dos trabalhadores da PDVSA que se aliaram à oposição, ao empresariado e à mídia e que controlavam os trabalhadores da estatal venezuelana de petróleo tiveram seu poder esvaziado. Chávez, no decorrer de 2003, foi substituindo os empregados da PDVSA até que expurgou da empresa todos os vinculados aos seus opositores. No ano seguinte, ainda fragilizado, tendo que conviver com grandes marchas de oposicionistas e com a incitação contra ele por parte dos meios de comunicação, submeteu-se ao que queriam opositores que, dois anos antes, o haviam seqüestrado e anunciado que ele tinha “renunciado”; submeteu-se a um “referendo revogatório”, ou seja, os venezuelanos foram chamados às urnas para dizerem se queriam que o presidente do país continuasse no cargo ou não. Em agosto de 2004, o referendo aconteceu, como queriam a oposição, a mídia, o empresariado e considerável parte da sociedade. Sob pedidos de seus opositores, os mais importantes países do mundo, organizações não-governamentais, enfim, toda sorte de governos e instituições enviaram observadores para atestarem – ou não – a lisura do pleito que decidiria se o presidente da Venezuela seria mantido no cargo pela vontade popular. Chávez venceu por maioria esmagadora e todos aqueles observadores atestaram que venceu de forma limpa.

Apesar de todas as exigências dos opositores de Chávez terem sido atendidas, eles não aceitaram o resultado do referendo. Passaram a acusar uma fraude eleitoral que ninguém viu, da qual não havia o menor indício. Para que se tenha uma idéia, até o governo norte-americano, inimigo visceral de Chávez, reconheceu sua vitória. Contudo, a oposição, a mídia e os setores amplos – porém minoritários – da sociedade que queriam defenestrar o presidente, permaneceram irredutíveis.

No ano seguinte (2005), haveria eleições parlamentares. Os opositores de Chávez, então, viram aí a possibilidade de criarem um impasse institucional. Recusaram-se a participar da eleição de representantes no Congresso na esperança de que a votação não conseguisse o número mínimo de votos para validar-se. Ocorreu o inverso. Os partidos que apoiavam Chávez conseguiram o comparecimento necessário para que a eleição de congressistas vingasse, de maneira que a Assembléia Nacional foi quase que totalmente formada por chavistas, o que conferiu ao presidente venezuelano o poder que ele tem atualmente.

Discordo de uma situação na qual um presidente acumula tal poder. Atualmente, Chávez tem atendido seu povo, por mais que digam que não. Ele, por exemplo, estatizou a empresa de eletricidade “Eletricidad de Caracas”, que era privada como a empresa “Eletricidad de Valencia”, e, agora, os venezuelanos da Capital Federal pagam muito menos pela energia elétrica. Foi estatizada a empresa de telecomunicações Cantv, e os venezuelanos estão pagando menos pela telefonia. Foram criadas “Misiones”, postos do governo que provêem saúde, educação aos venezuelanos pobres como nunca tinham recebido. Uma das “Misiones”, a “Misión Robinson”, em dois anos conseguiu pôr fim ao analfabetismo na Venezuela e a Unesco, da ONU, atestou que isso de fato ocorreu. O salário mínimo foi elevado a cerca de 300 dólares... Contudo, se Chávez – ou algum sucessor seu – usar mal o poder que o governo central está acumulando, ninguém terá como fazer frente a eventuais desmandos.

Mas o que levou os venezuelanos a entregarem tanto poder a Chávez se não o fato de que ele os beneficiou como nenhum de seus antecessores havia jamais feito? Além disso, que ninguém se esqueça – ou deixe de saber – que as reformas propostas por ele à Constituição terão que ser aprovadas por um referendo popular. Repito: tudo o que Chávez propôs ao Congresso na quarta-feira passada, terá que ser aprovado pelos venezuelanos nas urnas.

Enquanto o poder de Chávez aumenta a cada dia, no entanto, seus opositores, a exemplo dos opositores de Lula no Brasil, continuam apostando em velhas fórmulas que fracassaram miseravelmente e que só fazem aumentar o poder (já enorme) do presidente da Venezuela e o apoio (irredutível) do presidente do Brasil. E por que? Porque esses opositores continuam mentindo e distorcendo os fatos compulsivamente. Continuam esbofeteando a maioria do povo, chamando-o de ignorante e inculto por votar como uma parte minoritária da sociedade não quer, e continuam contando mentiras escandalosamente evidentes, como se todos fossem retardados.

O poder de Chávez não pára de crescer, e o que induz esse crescimento, além da dedicação integral do presidente aos interesses da maioria eternamente oprimida dos venezuelanos, é a arrogância de setores daquela sociedade que sempre se beneficiaram da exclusão dos mais pobres e agora não se dispõem, de maneira alguma, a abaixarem um pouco suas cristas e a negociarem os anéis para preservarem os dedos. O poder de Chávez não pára de crescer porque seus inimigos tratam de adubá-lo diariamente, com o desvelo com que um jardineiro cuida de seu jardim.

Os morros de Caracas

Estou há quase uma semana na Venezuela e ainda não consegui localizar um só chavista convicto. Esse fenômeno, no entanto, me foi explicado pelos anti-Chávez que tenho encontrado. Eles dizem que os chavistas estão no interior e nas periferias. No caso de Caracas, nos morros que circundam a cidade.

Vale dizer que Caracas tem uns quatro milhões de habitantes, sendo que pouco mais de um terço vive na “cidade baixa” e o resto vive nos morros.

No fim de semana que se apresenta, pretendo ir a esses morros ouvir a versão dos chavistas. No entanto, tenho sido alertado por todos com quem falo (clientes, taxistas, recepcionistas do hotel etc) de que fazê-lo será “extremamente perigoso”. Dizem-me que os morros estão cheios de “bandidos” e “delinqüentes” que atacam pessoas de minha classe social para roubar ou até por pura “raiva”.

Subir aos morros de Caracas, à pobreza, é perigoso? Sim, talvez seja. O problema é que se essa parte mais privilegiada da sociedade caraquenha não subir aos morros de Caracas, os morros de Caracas descerão até ela. Assim sendo, subirei até os pobres desta cidade para escutar o que têm a dizer. Sinto-me na obrigação de fazê-lo, a despeito dos eventuais riscos.
Escrito por Eduardo Guimarães no dia 17/08/2007, no seu blog http://edu.guim.blog.uol.com.br/

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Entendendo a Venezuela (2)

Entender a Venezuela

Escrevo depois de já estar há alguns dias na Venezuela. Nos últimos dias, comecei a formar uma visão menos maniqueísta da realidade complicada que vige neste país. É essa visão que procurarei transmitir a vocês, na tentativa de fazer as pessoas em nosso país entenderem que apoiadores e críticos do governo de Hugo Chávez deveriam adotar uma cautela incomensuravelmente maior em relação ao que a intolerância e a total ausência de bom senso vêm produzindo na sociedade com a qual estou tendo contato.

Fazia alguns anos que não vinha à Venezuela. Não conhecia o novo prédio do aeroporto Simon Bolívar – Marquetia, destinado aos vôos internacionais. Moderno, amplo, já mostra ao visitante que chega ao país que a Venezuela atravessa um momento de expressivo incremento de sua economia. O dinheiro, na Venezuela, está literalmente jorrando, junto com o petróleo que brota do chão em abundância e permite aos venezuelanos encherem o tanque de seus carros com 2 ou 3 dólares, dependendo do tamanho do veículo.

Apesar do endurecimento das leis que o governo Chávez vem promovendo, não encontrei maiores dificuldades na imigração ou na alfândega. Os procedimentos e regras são iguais aos de qualquer outro país.

Comecei minhas investigações sobre o ânimo político do povo venezuelano já no táxi que me conduziu do aeroporto até a região de Chacao, no centro de Caracas. O veículo era um Chevrolet Impala com dois anos de uso. Um carro luxuoso, espaçoso e, por certo, caro. Faz, no máximo, uns 6 quilômetros por litro de gasolina, mas, na Venezuela, o consumo de combustível não faz diferença.

Como vocês devem ter previsto, mal a viagem de táxi começou e eu já puxei assunto com o motorista sobre política. Ele se chama Giovanni e tem 52 anos. É branco, loiro, baixinho e com um bigodinho meio cômico. Porém, mostrou-se muito simpático. E, perguntado sobre política, desandou a falar.

Para minha surpresa, um motorista de táxi, alguém que está longe de ser rico, da “elite”, mostrou um ódio a Chávez que poucas vezes vi. Disse, só para começar, que o único jeito de tirá-lo do poder será assassinando-o. Aliás, essa “solução” mostrar-se-ia cada vez mais popular entre a expressiva maioria dos venezuelanos com os quais falei sobre política nos três primeiros dias de minha viagem.

Giovanni, o motorista de táxi, revelou-me o que eu encontraria pela frente. Disse que pelo menos uns 90% dos venezuelanos pensam como ele. Perguntado por mim sobre como seria possível isso, haja vista em que Chávez acaba de ser reeleito por esmagadora maioria, argumentou, primeiro, que a última eleição, bem como todas as outras que o presidente vem ganhando há anos, foram fraudadas. As urnas eletrônicas seriam manipuladas pelo governo, pelo CNE (Conselho Nacional Eleitoral), que seria controlado por Chávez. Argumentei, então, que centenas de observadores internacionais avalizaram a lisura dessas eleições. Giovanni, visivelmente contrariado e até surpreso por ouvir alguém com “pinta” de homem de negócios “defender” o odiado “índio” Chávez, disse-me que o poder do presidente é muito grande por causa do petróleo e, por isso, ele cooptou os tais observadores. Perguntei, então, sobre o fato de que até os EUA reconheceram a vitória de Chávez. O sujeito ficou meio sem saber o que dizer e achei melhor não acuá-lo, pois estava ficando muito nervoso.

Perguntei, então, sobre a tentativa de golpe de Estado de 2002, se ele havia participado das manifestações contra o governo e se continua participando. Ele disse que sim. Ele, sua família, amigos etc. Mas garantiu-me que não houve golpe algum. Que, como a população havia se levantado contra Chávez, ele decidiu renunciar – ou fingir que renunciaria – para simular, depois, que teria havido tentativa de golpe e se fazer de “vítima”. Perguntei por que o documento que Chávez teria assinado renunciando não tinha sido mostrado na tevê. O homem voltou a se enervar e decidi parar de novo.

Antes de terminar a viagem, ainda tentei saber de Giovanni que prejuízo tão grande o governo Chávez lhe tinha acarretado para ter tanta raiva dele. O taxista havia me contado, antes de abordarmos o assunto política, que vem trocando de carro a cada dois anos, comprando sempre um carro zero, e que a gasolina, os derivados de petróleo em geral estão cada vez mais baratos e que, na Venezuela, ser taxista é um bom negócio por causa dos preços dos combustíveis. Então não resisti e insisti: por que você odeia tanto Chávez?

O taxista começou a desfiar um rosário de razões que nada tinham que ver com ele mesmo. Falou da centralização do câmbio, das estatizações das companhias de eletricidade, de telefonia e até do teleférico moderníssimo que liga Caracas ao alto de um dos morros que circundam a cidade, que foi construído por uma empresa francesa - provavelmente a mesma que administra o teleférico de Quito, no Equador. E também explicou que teme o socialismo do século XXI que Chávez diz que implantará na Venezuela, ou seja, teme perder sua casa, seu carro, os poucos bens que amealhou numa vida inteira de trabalho. Em suma: teme que a rica Venezuela se transforme numa Cuba.

Gastei todo esse espaço com o taxista Giovanni porque o discurso, as razões dele para se opor tão ferrenhamente a Chávez, para participar de manifestações que sempre trazem risco de terminarem em violência e morte, eu ouviria coisas iguais de um engenheiro, de um recepcionista de hotel, do dono de uma banca de jornal, de uns três clientes meus e acho que continuarei ouvindo o mesmo de todas as pessoas da “cidade baixa”, que, por menos que tenham, têm o que perder se a Venezuela adotar o socialismo cubano, abolindo a propriedade privada.

A Venezuela, porém, esta sendo claramente bem administrada. O país tornou-se um enorme canteiro de obras públicas, a economia está “bombando” de uma forma impressionante, a construção civil, a agricultura, uma indústria mais sofisticada – como a de meu segmento, autopeças - está florescendo devido a proteções alfandegárias que estão sendo impostas num claro processo de substituição de importações... Só para ficar no meu segmento, já se fabrica aqui tambores de freio, filtros de ar e muito mais. Está surgindo um país algo industrializado no lugar daquele que sempre viveu do petróleo.

Entender a Venezuela, então, começou a se tornar mais difícil. Por que a classe média – alta e baixa – odeia tanto Chávez? Esse dilema perdurou até que, ontem, eu visitasse um cliente da cidade de Barquisimeto, a uma hora de avião de Caracas.

O motorista da empresa me esperava no aeroporto. Fomos conversando. O rapaz, José Morales, contou-me que não se mete em política. Que não entende bem o que está acontecendo no país e que prefere não dar palpite. Só disse que está feliz porque conseguiu trabalho há três anos e que é isso o que lhe importa, e que deixa a política para quem “gosta”.

A surpresa viria de onde eu menos poderia esperar. O diretor comercial da empresa que fui visitar é um negro alto, de 37 anos. Alfredo. Simpático, inteligente, bem vestido. Sua sala, muito bem montada, com frigobar, televisão e com móveis de escritório de diretor mesmo. Mesa de tampo de granito, computador com um gigantesco monitor de cristal líquido, quadros, tapetes...

Serviram-me café, água e tratamos de negócios. Quase caí da cadeira quando o sujeito me apresentou sua proposta de importação dos produtos que comercializo. O tamanho do pedido que estaria disposto a fazer se eu aceitasse seus termos (preço, prazo de pagamento etc.) era alto até mesmo para os parâmetros de negócios no Brasil. Claro que as exigências não são fáceis de atender, mas elas se devem ao poder de compra da empresa. Assim sendo, fiquei de responder a proposta posteriormente. Fui, então, convidado a conhecer a empresa. Os estoques aéreos (sistema paletizado), os galpões forrados de mercadorias até os tetos - que ficavam, pelo menos, a uns quinze metros de altura. Empilhadeiras. Caminhões de entrega. Funcionários e mais funcionários, todos uniformizados...

Fomos almoçar, depois de uma manhã inteira trabalhando duro. No restaurante, pensei duas vezes antes de abordar o assunto política. Afinal, além de correr o risco de me tornar antipático para alguém com quem estava tentando fazer negócio, que mais eu poderia esperar de um executivo de uma empresa como aquela se não que reproduzisse o discurso do taxista?

Enganei-me. Muito. Expus ao executivo Alfredo minha incompreensão sobre por que uma sociedade que está enriquecendo e se desenvolvendo odeia tanto aquele que está promovendo esse sucesso todo. Meu interlocutor assumiu um ar meio confidencial. Ele, bem como o presidente e toda diretoria da empresa acreditam cada vez mais na Venezuela, tanto que essa empresa vai investir mais de dois milhões de dólares até o fim deste ano. Não existe o menor medo de “cubanização “ do país. Então, Alfredo me explicou por que outras empresas, a classe dirigente que está ganhando dinheiro como nunca, incita o medo da classe média baixa, arrastando-a às ruas e apoiando o golpismo da mídia e da oposição.


“Esta empresa, Eduardo, trabalha estritamente dentro da lei. Veja que não teremos dificuldade nenhuma de importar de vocês ou seja lá de quem for. Com centralização do câmbio e tudo mais. Pagamos nossos impostos rigorosamente em dia, pagamos corretamente os direitos trabalhistas de nossos funcionários e lhes damos os benefícios trabalhistas que o governo exige. Então, não temos problemas. Agora, empresas que estavam acostumadas a poupar para si dinheiro de impostos, a prejudicar seus empregados, a mandar dinheiro para fora do país, essas estão com problemas. Para nós, não haverá ‘cubanização’ alguma. Haverá o que há nos EUA, na Alemanha, na Inglaterra... Teremos, todos, que trabalhar dentro da lei ou o Estado nos quebrará”

Alfredo contou-me que não votou na última eleição presidencial porque estava fora do país, mas, se votasse, não votaria em Chávez, porque, com ou sem ele, o caminho de progresso da Venezuela tornou-se irreversível – graças a Chávez. Assim, sem Chávez no poder, talvez sobrevenha uma pacificação da Venezuela, ainda que tema a reação das classes baixas, aqueles que pessoas que vêm à Venezuela tratar de negócios dificilmente vêem, pois estão nos morros que circundam Caracas, por exemplo, trabalhando nas “misiones” chavistas, enfim, são aqueles que nada têm a perder com ou sem “cubanização”.

Segundo Alfredo, a resposta à minha dúvida sobre por que uma classe média que está sendo beneficiada economicamente se atira com tanta fúria contra o indutor desses benefícios, é a de que essas pessoas têm medo. Tudo se resume a medo do desconhecido. Medo por parte de empresas que só cresceram às custas da sonegação, da corrupção e da exploração dos empregados. Medo de não conseguirem se manter sem esses “instrumentos”. E medo da famigerada “cubanização “, de mesmo pessoas que só tem uma casinha e um carrinho perderem o pouco que têm. Por isso, quem apóia Chávez são aqueles que nada têm a perder. Esses não têm medo de nada além de continuarem como ainda estão, apesar de estarem melhorando devagarzinho

Ainda tenho uma semana aqui na Venezuela, a partir de amanhã. Quero saber mais. Quero falar, também, com os satisfeitos. Só terei que ir aos morros. Mas penso que já entendi o que está acontecendo na Venezuela. Espero que tenha sido claro o suficiente para vocês entenderem também.

Volto assim que for possível, que agora tenho que defender meu ganha-pão.



Escrito por Eduardo Guimarães no dia 15/08/2007, no seu blog
http://edu.guim.blog.uol.com.br

Entendendo a Venezuela (1)

Eduardo Guimarães é empresário, e esteve na Venezuela neste mês de Agosto à trabalho. Aproveitando a viagem, conversou com todo tipo de cidadão venezuelano sobre a política atual no país, de qual é a visão deles em relação ao governo de Hugo Chavez e como está a situação econômica e social de todos eles.

Eduardo, a cada experiência vivida e cada conversa reveladora, escrevia já no mesmo dia do acontecido, postando no seu blog e refletindo diversas vezes sobre a real situação daquele país, o qual só pode ser criticado ou admirado por quem realmente o conhece muito bem por experiência própria, mesclado com um certo interesse, conhecimento e raciocínio lógico sobre a história política da América Latina.

Reproduzo seus posts no meu blog para que vocês, que não tiveram acesso às informações repassadas por ele, no seu blog (ou em outro), saibam mais sobre a verdadeira situação na Venezuela, e reflitam sobre o que ele escreve e sobre o que chega até vocês através dos meios de comunicação do Brasil, assim, comparando a grande mídia daquele país e do nosso, e sobre o que vocês devem acreditar ou não.

Reconheço a importância da representação da viagem de Eduardo e da divulgação em outros blogs, para que conceitos já formados, ou sendo formados, sobre países vizinhos e parceiros, sejam melhor analisados.

O blog do Eduardo Guimarães é http://edu.guim.blog.uol.com.br/ - recomendo.

Venezuela, meu desafio

Uma chance de ouro apresenta-se a este pretenso e autônomo observador da imprensa. Trata-se da chance de mostrar como acho que deveria ser o jornalismo praticado no Brasil pelas grandes empresas que exploram o mercado jornalístico, isto é, os grupos Globo, Abril, Folha, Estado etc. Vale explicar, entretanto, que me refiro exclusivamente aos grandes porque é neles que se concentra o seriíssimo problema que penso que acomete o jornalismo brasileiro contemporâneo. Entre os pequenos, apesar de boa parte deles imitar o mau jornalismo que vem sendo feito pelos grandes, há, sim, vários veículos que, a meu juízo, fazem bom jornalismo.

Mas que chance é essa que se apresenta a um comerciante para fazer (bom) jornalismo? Para quem está habituado a me ler em meu blog, o que direi não constitui novidade. Para os demais leitores, entretanto, devo informar que embarco hoje (domingo, 12 de agosto) à noite para um dos países sobre o qual a imprensa brasileira mais vem produzindo informações, no mínimo, questionáveis. Refiro-me à Venezuela. Nas próximas duas semanas, percorrerei, em missão comercial, várias cidades venezuelanas, começando pela capital federal, Caracas. Também visitarei Valencia, Barquisimeto e Maracaibo.

A desinformação sobre o quadro político-institucional-econômico venezuelano, nos demais países latino-americanos, é muito grande. Para que se tenha uma idéia, os grandes meios de comunicação da região alardeiam a idéia de que a Venezuela é uma ditadura comandada, com mão-de-ferro, pelo presidente Hugo Rafael Chávez Frías. Outra informação que a grande imprensa latino-americana tem difundido sobre a Venezuela é a de que o regime daquele país estaria promovendo cerceamento à liberdade de expressão. Mas a informação mais polêmica, neste momento, é a de que os venezuelanos, numa maioria que a imprensa daqui e de lá disse ser de uns 80%, desaprovaram a não-renovação da concessão da RCTV pelo governo venezuelano.

Os que já me leram outras vezes sabem que discordo veementemente dessas informações. Como sou um homem de idéias que meus críticos costumam qualificar como "de esquerda", como apóio (condicionalmente) o governo Lula, como tenho defendido os outros governos populares (ditos "populistas" pela imprensa conservadora) que têm ascendido ao poder na América Latina, tais como o da Bolívia, do Equador, da Argentina, do Uruguai e da Nicarágua, preocupa-me minha ideologia estando eu me propondo a fazer bom jornalismo, pois minhas crenças poderão fazer comigo o que as dos grandes órgãos de imprensa fazem com eles, ou seja, tais crenças poderão me levar a distorcer a realidade em prol daquilo em que acredito.

O bom jornalismo, em minha opinião, é, antes de tudo, a capacidade do jornalista de separar aquilo em que acredita daquilo que vê, e de relatar o que viu independentemente daquilo que gostaria de relatar. Porém, sobretudo na América Latina, os grandes meios de comunicação aboliram suas frustrações diante da realidade. Quando esta não acompanha o desejo do jornalista (ou do patrão do jornalista), adapta-se essa realidade ao desejo.

Quero fugir do poder que nossos desejos exercem sobre nossa visão dos fatos. E é aí que, apesar da dificuldade, apresenta-se a tal chance de ouro à qual aludi no início deste texto. Meu desafio será o de relatar fidedignamente o que for vendo na Venezuela, mesmo que o que vir desagrade minhas crenças.

As pessoas querem saber o que de fato se passa na Venezuela. Sei de muitos conservadores e progressistas que preferem uma verdade desagradável a uma mentira reconfortante. E há, também, aqueles que não têm ideologia e que são maioria de nosso povo, e que, ao receberem informações da grande imprensa conservadora ou do reduzido jornalismo progressista que há no Brasil, acabam ficando "no escuro", porque percebem que não há como formar opinião séria diante do partidarismo e do ideologismo que se apoderaram do jornalismo brasileiro.

É um desafio e tanto, o meu. Sobretudo porque, apesar de que ficarei duas semanas na Venezuela, estou viajando a trabalho, para a empresa que está me financiando as viagens, e, portanto, não poderei me dedicar como gostaria a tal desafio. Dessa forma, não posso prometer que deslindarei definitivamente a verdade sobre a política, sobre a economia, sobre a situação social e sobre o ânimo majoritário dos venezuelanos em relação ao regime político que controla o Estado. Só posso prometer relatar fielmente o que vir. E em um tempo bicudo para o jornalismo como o atual, acho que não é pouco o que prometo.

Escrito por Eduardo Guimarães no dia 12/08/2007, no seu blog http://edu.guim.blog.uol.com.br

domingo, 19 de agosto de 2007

Uma lei universal

As crianças são seres especiais tanto quanto os adultos. Mas elas têm algo diferente, são mais puras e abertas para aprenderem. Podemos perceber que um humano, com cerca de um a cinco anos, não sente indiferença para com os outros da sua mesma idade. Elas são capazes de se entreter, comunicar e ser amigas de qualquer um, independente de ser da mesma família biológica. Isso porque elas ainda não possuem algo que nós já temos: o ego. Suas mentes são mais limpas e seus espíritos mais capazes de seguir os instintos da natureza do Universo. Porém, quase sempre, ao crescer e se criar em meio à sociedade, vão se tornar como nós. Irão estranhar uma pessoa que nunca viram sem fazer questão de comunicar-se com elas, serão mais individualistas e distantes da natureza universal. Serão, sim, iludidas por este mundo ilusório que o ser humano criou. Criação porque o povo em geral sempre teve a capacidade de inventar com sua inteligência, mas não de perceber a realidade da natureza do lugar em que vivemos. No entanto, de um certo ponto, isso não é ruim, pois toda essa atrocidade vem a servir como aprendizado e evolução do espírito. Basta em nós a capacidade de mantermos a cabeça aberta para coisas novas, mesmo que sejam surpreendentes e quase inaceitáveis. Assim, passamos esta vida de etapa para etapa, sem ter sido estática e em vão, e sim aproveitável e evoluída.

Diante do que há de errado no planeta, não devemos nos conformarmos. É bom lutarmos contra as insanidades, por nossa evolução. Porém, não precisamos nos desesperar. O Universo é grande, existem outros planetas com vida como a nossa, e nós somos seres eternos. Então, sempre haverá espaço para todos, mesmo que não seja aqui na Terra. Entretanto, quanto antes despertarmos nossa consciência, mais cedo a humanidade evoluirá para o bem. Assim, olharemos para o outro com o sentimento de que são nossos amigos, pois é isto que são, só que não percebemos. Mesmo que nunca os tenhamos visto na vida, são seres como cada um de nós e estão aqui com o mesmo objetivo: evoluir. Somos todos colegas que precisamos um do outro para aprendermos as lições.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Mas háááá gaúcho véio!!!

Uma piada que me contaram. É muito comum piadas de gaúchos, as quais tiram sarro sem fundamento...eheh
Assim como piadas de português.
Mas esta mostra que o gaúcho é uma raça forte e sem frescura!!!
Para a prova final, os agentes da CIA colocaram os candidatos diante de uma porta metálica e entregaram uma pistola a cada um.
- Queremos ter a certeza de que seguem instruções, quaisquer que sejam as circunstâncias. Então, dizem ao Paulista:
- Atrás desta porta você vai encontrar a sua mulher sentada numa cadeira. Você terá que matá-la!
-Estão falando sério? Eu jamais mataria a minha mulher!
- Então você não serve - Responde o agente.
Ao Carioca deram as mesmas instruções. Ele pegou na arma e entrou na sala. Durante cinco minutos, tudo muito calmo. Depois ele regressou com as lágrimas nos olhos.
- Tentei, mas não posso matar a minha mulher.
- Você também não está preparado para trabalhar nesta agência. Pegue sua mulher e vá embora.
Chegou enfim a vez do Gaúcho... Deram-lhe as mesmas instruções. Ouviram-se tiros, um estrondo e depois outro... a seguir ouvem-se gritos, barulhos de móveis quebrando, etc. Após alguns minutos, silêncio total. A porta abre-se lentamente e o gaúcho sai, limpa o suor e diz:
- Bem que vocês podiam ter dito que os tiros eram de festim! Tive que matar a infeliz a cadeiradas!!!
Mas háááááááááá gaúcho véio hein!!

terça-feira, 17 de julho de 2007

As vaias ao presidente Lula

Todos que assistiram à abertura oficial do PAN no Maracanã, pela televisão, viram as vaias ao presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e ao Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral – PT. Logo em seguida, os aplausos para o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia –DEM (Demônios?). Lula teria sido “atropelado” pelo presidente da COB (Comitê Olímpico Brasileiro), quando este último fez o pronunciamento na vez de Lula. César Maia, afirmou que houve uma “confusão” e a assessoria do presidente pediu para Lula não fazer a declaração, mas esqueceu de informar o presidente da Odepa, que fez a chamada.

O ministro do Esporte, Orlando Silva, disse que as vaias podem ter sido “orquestradas”.

Mauro Carrara, do Grupo Beatriz, resolveu investigar de que maneira teria sido projetado o plano de vaias e aplausos, que causou a humilhação a Lula. Conversando com jornalistas, políticos e gente do povo, levantou 14 indícios que podem ser úteis, mais tarde, para uma investigação para confirmar o caso, e eu os reproduzo aqui:

1) Havia mais de um mês, já se falava numa "recepção" diferenciada a Lula na festa de abertura do Pan. O assunto era comentado com freqüência na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira, no prédio da Secretária Municipal de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro.
2) Há cerca de três semanas, esse foi supostamente o tema de uma reunião entre Marcelino (que deve ser o D'Almeida), Moacyr (que deve ser Barros Bastos) e Gustavo Coimbra Coelho Cintra, na sede do Recreio dos Bandeirantes.
3) Estranho é que, no dia seguinte, o assunto voltou à baila num encontro entre Coelho Cintra e as senhoras Ágata Borges de Castro e sua lugar-tenente, Cecília de Moraes. Na secretaria especial de comunicação, gerou-se uma turbulência. Era preciso recrutar gente para um serviço especial.
4) No mesmo dia, na Rua Afonso Cavalcanti, apareceu o Sr. Alexandre da Fonte, do Riocentro, disposto a ajudar no que fosse necessário. Tinha uma lista de voluntários para ajudar nos serviços extras - relação que circulou por mais de um departamento.
5) Dias depois, noutra secretaria, ouviu-se exatamente a mesma coisa. Os preparativos para a recepção a Lula tinham de ser especiais. O Sr. João Marcos de Alburquerque pediu, então, uma reunião com o pessoal do COB, que se deu no dia seguinte. Carlos Arthur Nuzman, sabe-se, recebeu Albuquerque para tratar do assunto. Não se saber exatamente sobre o que falaram.
6) Consultado sobre o assunto, na época, o responsável pela imprensa do Comitê disse apenas tratar-se de "assunto político", não diretamente ligado aos preparativos para o Pan.
7) Estranho é que, em todo canto, o assunto "recepção a Lula" era ouvido. Há três semanas, esse mesmo assunto foi suposto tema de uma reunião do Relações Públicas Roberto Falcão com um grupo de publicitários paulistas, capitaneados por um certo Fabra e um incerto "Catchola", que apresentou uma série de desenhos do estádio, com destaque para as arquibancadas. Que se saiba, esses homens de propaganda não faziam parte do grupo de trabalho. Ao contrário, o tal Fabra parece ser o mesmo homem por trás do site e-indignação, destinado a espicaçar o atual governo e amplificar o movimento de oposição.
8) No mesmo dia, o tal Fabra esteve por horas com o Sr. Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo e colunista de O Globo. Oficialmente, segundo a agenda do bam-bam-bam global, o assunto foi o Pan do Rio.
9) Há quinze dias, o tal Fabra teria novamente aparecido na sede do COB. Outro participante da reunião, segundo fontes confiáveis, foi um tal de Saulo Romay. Bendito Google. Vem a calhar que o sujeito é algo como representante da juventude do PSDB no Rio de Janeiro. O que teria ele a ver com a organização do Pan? É um mistério que perdura.
10) Nesse mesmo dia, coincidentemente, houve uma reunião especial entre os coordenadores dos voluntários do Pan. Cerca de 16 pessoas estiveram presentes. Ao fim, foram avisadas sobre um treinamento especial, que ninguém ainda sabe do que se trata. Segundo uma atenta secretária, alguns saíram assustados do encontro.
11) Dia 2 de Julho. Informalmente, é criado - sabe-se lá por quem - um grupo de setenta voluntários, para serviços especiais.
12) Dia 12: preparação para a solenidade. Do nada, um grupo começa a treinar uma vaia. Não se sabe para quem. Não se sabe com qual interesse. Isso ocorre por três vezes durante o ato preparatório.
13) Aparentemente, os tais 70 são estrategicamente distribuídos pelo Maracanã. Alguém protesta, antes da cerimônia. Há confusão. No portão 18, cerca de 100 voluntários são barrados. Segundo a organização, seus lugares foram provisoriamente tomadas pelo pessoal da "coordenação estratégica".
14) Dia 13 de Julho, quase meia-noite. O estudante Rogério, de 18 anos, morador em Duque de Caxias, conversa com este repórter. Reproduzo fielmente o que me foi dito: - Era mesmo para vaiar o Lula, do jeito que disseram. Uns das coordenações, do grupo, puxaram mesmo e o pessoal foi atrás. Se dois, três começam, vai todo mundo no arrastão. Tinha gente lá ontem que nem tinha participado de nada. Foi lá só para agitar mesmo. E o pessoal foi no embalo. Eu não vaiei. Fiquei quieto. Mas teve uma agitação. Se alguém filmou direito, vai ver quem é que botou fogo na galera.

É tudo realmente estranho, porque Lula estava com a popularidade em alta no Rio. Mais de 60% da opinião pública na cidade julgava o governo ótimo ou bom. Lula não é tão impopular para o ponto de ser vaiado na abertura do PAN e César Maia não tão popular para ser aplaudido. Um outro indício que fica indagado entre nós, é de que os ingressos mais baratos teriam sido esgotados já antes do povo ter ido comprar. A explicação dos tucanos-pefelistas é de que todos estes ingressos teriam sido vendidos pela Internet, o que seria um absurdo.

O mais estranho ainda é que nenhuma emissora tocou neste assunto profundamente. Fizeram somente comentários, mas nenhum tipo de reportagem para por em preocupação o caso. Há indícios também de que a Rede Globo estaria envolvida com a suposta “orquestra” das vaias.

Bom, estas e outras informações, deixam muitos brasileiros desconfiados de que César Maia usou dinheiro público para uma jogada política, contra o Governo Federal. Tanto é que ele havia criado a polêmica de que o PAN era da cidade do Rio de Janeiro, e não do Estado Brasileiro, sendo que se não fosse o investimento da Federação, não haveria PAN no Brasil.

Portanto, há muitos e muitos indícios desta armação em cima do nosso chefe de Estado, o suficiente para abrirem uma CPI e investigar profundamente o caso, para logo ser esclarecido ao povo brasileiro sobre esta vergonha que inundou o Maracanã e o mundo, justo numa abertura de PAN.

Muita gente julga este fato como uma reação democrática do povo brasileiro, um grito de basta para o Governo Federal, que estaria provocando tanta corrupção. No entanto, fazem questão de se cegar diante dos bem feitos que Lula está fazendo no Brasil. Subestimo mesmo, o pensamento do povo que é tão pessimista a ponto de enxergar só o ruim e a cortina que a grande imprensa põe para esconder tão indecência deste conflito de interesses políticos. Depois dizem que a Rede Globo é democrática, ou se conformam por ela controlar suas mentes.

Até hoje eu considerava só uma hipótese, agora estou tendo cada vez mais certeza. Os indícios são claros, tudo se encaixa, e minha fonte vem de muitos blogs de jornalistas, políticos e gente do povo. A imprensa tenta minimizar ou esconder, o mesmo que quem armou está fazendo, pois levou um susto ao ver que a organização da “orquestra” foi mal feita, mal escondida. Também porque a maior estranheza do ocorrido no Maracanã foi de quando aplaudiram César Maia.

Já andei sabendo que os petistas e os comunistas do PCdoB têm certeza que foi tudo armação de César Maia. Teria ele levado cerca de cinco mil pessoas da sua índole para o estádio puxar as vaias e os aplausos. Não passa de inveja, covardia e jogo sujo em cima do Governo Federal. Política pequena feita pela oposição à quem está no poder, não por Lula ser esquerdista, mas por estar fazendo algo de bom pelo país. Lembrem que o partido Democratas é o antigo PFL, que era o antigo Arena, que era o partido dos militares da ditadura.

Então, penso que temos de acordar para não nos deixar levar por este tipo de joguinho político. Temos que prestar atenção no que o Brasil está melhorando e não perder tempo com estas armações. Mas defendo que uma CPI tem que ser aberta para esclarecer de vez ao povo brasileiro o que ocorreu, não para defender Lula, mas para todos verem quem é que faz a sujeira em nosso país.

Fonte:
http://www.desabafopais.blogspot.com/ e http://www.folhaonline.com.br/

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Sua participação é indispensável

Gostar de política, algo meio complicado. Tantos corruptos aparecem a cada dia. E nos meios de comunicação escândalo num lado, escândalo no outro. Podemos dizer que na frente vem a violência, pobreza e atrás, sem que vejamos, a manipulação. Algumas belezas do país ainda se vêem pela mídia. Mas e os bem feitos que o governo também produz? Sim, existem muitas ações boas pelo Brasil, nas quais o governo gera. Ou senão estaríamos afundando que nem chumbo em alto-mar. E você? Procura saber o que o governo faz? Acredita realmente que as principais emissoras de televisão e os meios impressos mais vendidos transmitem a você o que precisa saber? Acontece que estes passam ao público só o que querem e o que for do seu interesse capital. E por que você não vai a busca de outros meios? Porque os grandes não te dão tempo e nem vontade.

O objetivo não é subestimar a mente do povo, mas condenar os mais diversos meios de corrupção e de manipulação que a mídia traz por seus donos poderosos infiltrados na política. Ou os políticos infiltrados na mídia. Tanto faz, desde que já possamos nos dar conta que algo está errado.

E o jornalista? Sempre passivo, obedecendo às ordens do patrão, para garantir o salário no fim do mês. Liberdade de expressão para falar nas ruas, ou em casa, porém jamais na grande emissora de TV, jornal ou revista. Liberdade de imprensa para os donos dela abusarem, ao ponto de se acharem livres para escolherem a programação, mentir, subornar, distorcer. E a massa se retorcer. O cidadão achando que participa, ou conformando-se de que não pode. Os ativos alertando sobre este problema? Existem, graças a seu santo. Mas são poucos nesta vasta terra populosa controlada pelo descontrole. Um só que pode dar um basta geral: o povo. Mas onde ele está? Ocupado, trabalhando, cuidando da família, assistindo TV, indo à praia ou passar as férias no interior, viajando a passeio ou em busca de trabalho no exterior, jogando futebol, tomando cerveja, fazendo festas, reclamando dos políticos. No outro lado, passando fome, roubando e sendo roubado, traficando drogas, matando, criando o próprio mundo nas favelas ou nas ruas úmidas de sereno e escuras de abandono. E aí, onde entra seu interesse? Onde está sua preocupação e dignidade com estes inocentes enganados e com você mesmo? Quando você irá despertar e ver que tudo está errado e que precisa procurar saber os pontos quebrados para concertá-los? Isto é política e você a odeia.

É certeza que você gosta de governar seu próprio método de trabalho, sua família, sua casa, corrigir os erros de seus amigos e colegas. Por que não pensa em governar também o seu país, a fim de melhorar sua economia, paz e natureza? De implantar a democracia para que você tenha controle do seu governo? Não é apelo para que vista a gravata e saia fazendo campanhas para prefeito, deputado, governador, senador ou presidente. O próprio ato de procurar saber o que acontece realmente em seu país e exigir rigidamente a transparência dos seus políticos e meios de comunicação, já é a melhor das políticas. Estará governando seu direito de democracia. Isto, os poderosos não podem controlar.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sepé Tiarajú - um herói vencido

Em plena colonização da América, portugueses e espanhóis disputavam posses de terras no Brasil. Mais especificamente no sul, havia a Colônia do Sacramento, fundada pelos Portugueses, mas não aceita pela Espanha. Porém, depois de tantas negociações, pelo Tratado de Madri, Portugal cede a colônia do Sacramento em troca do território dos Sete Povos das Missões, onde viviam cerca de 30 mil índios, que foram obrigados a abandonarem suas terras.

Quando os índios tomaram consciência do Tratado, revoltaram-se: "Como poderá ser a vontade de Deus que vós tomeis e arruineis tudo o que nos pertence? Aquilo que possuímos é exclusivamente o fruto de nossas fadigas, e o nosso rei não nos deu coisa alguma... Não somos apenas as sete missões da margem esquerda, mas doze outras reduções estão decididas a sacrificarem-se conosco desde que tenteis apoderar-vos de nossas terras..."

Foi aí que estourou a Guerra Guaranítica, comandada pelo líder Sepé Tiarajú, que espalhou todo seu sangue de revolta aos demais indígenas pelo grito de expressão: Esta terra tem dono. Ela foi dada por Deus e São Miguel! E todos partiram para defender suas terras com arcos e flechas. E do outro lado vinham os portugueses e espanhóis com suas armas de fogo.

A guerra durou três anos (1753 a 1756). Neste último ano, os brancos perceberam que Sepé era o coração da batalha para os guaranis. Muito espertos, focalizaram a perseguição para derrubar o líder, que no final, foi pego e tombado pelas armas de fogo.

Dias e mais dias, após a tentativa de resistência dos guerrilheiros, a guerra termina com rios de sangue indígena e os sobreviventes vencidos se obrigam a mergulhar na escravidão. Mas certamente, nem isto aceitaram. Pelos maus tratos e até por conta própria foram morrendo aos poucos.

Sepé Tiarajú, um grande líder revolucionário, foi quem emancipou a tentativa de defender suas terras, jamais se entregando. Terras que foram fruto de anos de trabalho pela introdução de uma cultura pacífica, harmoniosa, com um socialismo que cedia igualdade a todos, não se admitindo riqueza e miséria, apenas uma arte de viver cultivando a natureza e seus costumes, buscando a evolução cultural e tecnológica para seus meios de sustentação. Este é um grande exemplo da vida que a natureza propôs quando criou-se no universo.

Hoje, sobraram poucos índios, mas as lembranças nunca se apagam na memória daqueles que valorizam sua vida, sua dignidade, sua liberdade em meio ao lugar em que vive. Até por que a alma de cada "vencido", ainda renasce em nossos corpos.

E ainda existe o império, a exploração por conseqüência do passado, a ganância e o egoísmo, a desumanidade. Mas ainda existe a esperança da mudança, basta cada um ter em mente a fé e atitude.

Esta terra ainda tem dono, e é para aqueles que trabalham em benefício dela.

SEPÉ TIARAJÚ é um exemplo, e seu espírito sempre estará conosco.

Seu ideal vale não só para os gaúchos, mas para toda a América Latina e todos os povos do mundo que são injustiçados pelo egoísmo e pela covardia.

A mudança consiste na consciência humana, na busca por um equilíbrio entre os poderosos e os miseráveis, ao não aceitar uma evolução enganosa que nos levará ao caos do inferno através dos mais impuros e insanos pensamentos e atitudes do homem.

Mais detalhes de sua história:

http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendasepetiaraju.html

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O que é legal nem sempre é justo...

Já faz alguns dias, lendo um jornal, me chamou atenção uma coluna do Procurador Federal Marco Aurélio Moreira. Algo que acredito valer a pena publicar, pois mostra a tremenda bagunça de nossas leis, mas também os juizes (e não a Justiça) dignos que ainda existem. Esta Justiça que condena quando flagram um cidadão em estado de vadiagem, porém não sabe que o grande problema em nosso país é o desemprego, gerado não pelo comodismo, mas pela desigualdade, que se dá pela corrupção.
Neste caso, foi aberto um inquérito, contra um desempregado, pela contravenção de VADIAGEM, que passou pela 5ª Vara Criminal de Porto Alegre. Acredito em nosso progresso, pois existem pessoas conscientes no poder, apesar de poucas, como o juiz Moacir Danilo Rodrigues, que registrou uma sentença justa e crítica, que determinou o arquivamento do processo:

“Marco Antônio Dornelles de Araújo, com 29 anos, brasileiro, solteiro, operário, foi indiciado pelo inquérito policial pela contravenção de vadiagem, prevista no artigo 59 da Lei das Contravenções Penais.

Requer o Ministério Público a expedição de Portaria contravencional.

O que é vadiagem? A resposta é dada pelo artigo supramencionado: “entregar-se habitualmente à ociosidade, sendo válido pelo trabalho...” Trata-se de uma norma legal draconiana, injusta e parcial. Destina-se apenas ao pobre, ao miserável, ao farrapo humano, curtido e vencido pela vida. O pau-de-arara do Nordeste, o bóia-fria do Sul. O filho do pobre que pobre é, sujeito está à penalização. O filho do rico, que rico é, não precisa trabalhar porque tem renda paterna para lhes assegurar os meios de subsistência. Depois se diz que a lei é igual para todos! Máxima sonora na boca de um orador, frase mística para apaixonados sonhadores acadêmicos de Direito.

Realidade dura e crua para quem enfrenta, diariamente, filas e mais filas na busca de um emprego. Constatação cruel para quem, diplomado, incursiona pelos caminhos da justiça e sente que os pratos da balança não têm o mesmo peso.

Marco Antônio mora na Ilha das Flores [?] no estuário do Guaíba. Carrega sacos. Trabalha “em nome” de um irmão. Seu mal foi estar em um bar na Voluntários da Pátria, às 22 horas. Mas, se haveria de querer que estivesse numa uisqueria ou choperia do centro, ou num restaurante de Petrópolis, ou ainda numa boate de Ipanema?

Na escala de valores utilizada para valorar as pessoas, quem toma um trago de cana, num boliche da Volunta, às 22 horas e não tem documento, nem cartão de crédito, é vadio. Quem se encharca de uísque escocês numa boate da Zona Sul e ao sair, na madrugada, dirige [?] um belo carro, com a carteira recheada de “cheques especiais”, é um burguês.

Este se é pego ao cometer uma infração de transito, constatada a embriaguez, paga a fiança e se livra solto. Aquele, se não tem emprego é preso por vadiagem. Não tem fiança (e mesmo que houvesse, não teria dinheiro para pagá-la) e fica preso.

De outro lado, na luta para encontrar um lugar ao sol, ficará sempre de fora o mais fraco. É sabido que existe desemprego flagrante. O Zé-ninguém (já está dito), não tem amigos influentes. Não há apresentação, não há padrinho. Não tem referências, não tem nome, nem tradição. É sempre preterido. É o Nico Bondade, já imortalizado no humorismo (mais tragédia que humor) do Chico Anísio.

As mãos que produzem força, que carregam sacos, que produzem argamassa, que se agarram na picareta, nos andaimes, que trazem calos, unhas arrancadas, não podem se dar bem com a caneta, nem com a vida.

E hoje, para qualquer emprego, exige-se, no mínimo o primeiro grau. Aliás, grau acena para graúdo. E deles é o reino da terra.

Marco Antônio, apesar da imponência do nome é miúdo. E sempre será.

Sua esperança? Talvez o Reino do Céu.

A lei é injusta. Claro que é. Mas a justiça não é cega? Sim, mas o juiz não é.

Determino o arquivamento do processo deste inquérito”.

E depois dizem que devemos seguir as leis. Não exatamente!
Bom, não preciso dizer mais nada. O juiz já falou tudo!!!


Miojo